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País tem 3ª maior inflação entre os que usam o regime de metas

Mesmo com a estagnação da atividade econômica, a inflação brasileira segue elevada para padrões internacionais. De 26 países que adotam o regime de metas, em apenas dois o índice de preços ao consumidor superou a alta de 6,41% registrada pelo indicador do Brasil em 2014: Gana e Turquia. Na América Latina, onde os alvos perseguidos são menores que os 4,5% fixados pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) até 2016 (ver tabela abaixo), os índices estão mais contidos (Argentina e Venezuela não adotam regime de metas).

Esse quadro tende a se repetir em 2015. Segundo o consenso de 30 instituições consultadas pela Focus Economics no LatinFocus Consensus Forecast, o IPC vai avançar 2,9% no Chile, 3,1% na Colômbia, 3,5% no México e 2,6% Peru até dezembro. Por aqui, o IPCA em 12 meses já começou o ano com alta de 7,14% ­ bem acima do teto da meta, de 6,5% ­ e não tende a perder muito fôlego.

Entre os Brics, a inflação brasileira foi mais baixa do que na Rússia e na Índia no ano passado, onde os preços subiram 7,8% e 7,2% em 2014, respectivamente. Neste grupo, o único país que adota o regime de metas de inflação além do Brasil é a África do Sul, que teve inflação de 6,1%.

Segundo economistas, a definição de um centro maior e com uma banda de flutuação mais abrangente é um dos primeiros fatores que mantêm a inflação brasileira em nível superior ao dos outros países que perseguem metas. Desde 2005, o centro da meta perseguido pelo Banco Central é o mesmo, com tolerância de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Nossos pares latino­americanos também tiveram dificuldades em manter a inflação mais perto do centro em 2014, diz João Pedro Resende, do Itaú. No Chile, onde a inflação estourou o teto, a principal pressão veio da depreciação cambial. A inflação mexicana foi afetada por aumento de impostos, mas os núcleos se mantiveram abaixo do índice cheio, situação semelhante à da Colômbia, onde os núcleos mostram uma tendência mais comportada. Já o Peru não enfrentou pressões significativas, mas persegue uma meta muito ambiciosa.

Mesmo com a aceleração observada em 2014, aponta Resende, esse conjunto de economias foi relativamente bem sucedido em alcançar o centro de suas metas no passado, o que ancorou a inflação em um nível menor. Os preços mais comportados, inclusive, permitem hoje que esses países implementem políticas expansionistas para fazer frente ao crescimento fraco.No cenário do Itaú, o Peru deve cortar os juros em 2015, Colômbia e Chile vão manter suas taxas básicas e o México deve promover um leve aumento, de 3% a 3,5%, nível que ainda representa uma taxa de juro real que estimula a economia.

No Brasil, políticas anticíclicas levadas a cabo nos últimos anos acabaram gerando mais inflação, e o ano de 2015 será de ajustes. O economista­chefe do BNP Paribas para a América Latina, Marcelo Carvalho, nota que, de 2005 a 2010, o comportamento dos preços no Brasil era bem parecido ao observado no México, Colômbia, Chile e Peru.

A partir de 2011, porém, a inflação doméstica começou a superar a dos vizinhos, apesar da desaceleração do Produto Interno Bruto (PIB) doméstico. Para Carvalho, a piora do “trade off” reflete a política econômica do período, que, em suas palavras, “continuou pisando no acelerador e ladeira acima, mas num carro velho.”

A metáfora ilustra o descompasso entre oferta e demanda, que se traduziu em pressão de preços quando o governo continuou focando em políticas de incentivo ao consumo, mesmo em um ambiente internacional mais adverso, com queda de preços das commodities e perda de fôlego das principais economias emergentes, diz Carvalho.

Além da perda de credibilidade da política econômica, que levou a uma desancoragem das expectativas, o chefe de pesquisa para a América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, menciona a inércia como outro fator na composição da inflação doméstica. “A inflação está rodando em nível alto há vários anos, o que mantém a inflação corrente também alta”, disse. Em 2012 e 2013, o IPCA subiu 5,84% e 5,91%, respectivamente.

Já Patrícia Krause, economista para a América Latina da Coface, uma das principais empresas mundiais de seguro de crédito, aponta duas razões mais permanentes por trás do nível alto da inflação brasileira: a baixa taxa de investimento e o mercado de trabalho mais rígido, que resulta em custos trabalhistas maiores.

Segundo o Banco Mundial, a proporção do investimento em relação ao PIB foi de 22,7% no Chile, 23,7% na Colômbia, 21,5% no México, 25,5% no Peru e de apenas 18,5% no Brasil, considerando o período de 2010 a 2013.

Nos quatro trimestres encerrados em setembro de 2014, a taxa de investimento brasileira caiu ainda mais, para 17,3%. Para Patrícia, o desempenho fraco do lado da oferta explica por que o Brasil cresce pouco com inflação mais elevada. “Temos aumento da demanda com um investimento que não responde”, diz.

O descompasso entre oferta e demanda está por trás da inflação de serviços maior no Brasil, que também é um ponto fora da curva se comparada à evolução destes preços nas outras economias latino­americanas, diz Carvalho, do BNP. No Chile, a alta dos serviços foi de 5,4% em 2014, ante 3% no México, segundo cálculos do Itaú. Já no Peru e na Colômbia, o aumento de bens não comercializáveis, que são uma boa aproximação dos serviços, ficou em 3,8% e 3,4% no período. Todos os números não chegam nem perto do índice de 8,3% registrado no Brasil.

Fonte: Valor Econômico

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