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Jogos de azar: riscos sociais não podem ser ignorados

A discussão sobre a legalização dos jogos de azar voltou ao centro do debate no Congresso Nacional em 2025. O Projeto de Lei 442/1991, agora em análise pelo Senado Federal, que prevê a liberação de cassinos, bingos, jogos online e outras modalidades, tem sido apresentado por seus defensores como uma saída econômica: geração de empregos, arrecadação bilionária de tributos e estímulo ao turismo. Mas é preciso ir além do discurso sedutor da oportunidade econômica e olhar com responsabilidade para os efeitos sociais dessa proposta.

A experiência com a regulamentação das apostas esportivas, autorizadas por lei desde 2018, já oferece um alerta. Segundo dados do Serasa, o número de inadimplentes com perfil jovem aumentou 16% nos últimos dois anos, com destaque para dívidas relacionadas a cartões de crédito e plataformas digitais. Embora não haja uma linha direta com os jogos, especialistas em finanças pessoais e saúde mental apontam que o crescimento acelerado das “bets” tem alimentado o superendividamento de estudantes, trabalhadores e até aposentados.

O que parecia uma forma moderna de entretenimento se tornou, para muitos, um ciclo de perda financeira, frustração emocional e colapso familiar. O vício em jogos é uma realidade documentada por organizações de saúde pública. E seu impacto vai além da esfera pessoal: afeta a produtividade no trabalho, sobrecarrega serviços sociais e desestrutura relações familiares.

Além disso, há um impacto econômico menos visível, mas igualmente preocupante: a retração no consumo local. O dinheiro gasto em jogos de azar — especialmente por meio de aplicativos e sites controlados por empresas internacionais — deixa de circular no comércio de bairro, no pequeno varejo e nos serviços que sustentam a economia real. Trata-se de um deslocamento silencioso, mas contínuo, de recursos do setor produtivo para plataformas de alto risco, sem retorno concreto para as comunidades brasileiras.

Não se trata de um embate entre moralismo e progresso. A sociedade brasileira precisa superar essa dicotomia simplista. O que está em discussão é uma política pública de alto impacto — e, como tal, precisa ser tratada com base em dados, escuta da sociedade e análise profunda dos riscos sociais.

Como representantes do setor produtivo paranaense, defendemos um ambiente de negócios saudável, transparente e sustentável. Medidas que incentivam o consumo consciente e fortalecem o comércio local devem ser priorizadas. A legalização dos jogos de azar, se conduzida sem critério, pode ampliar desigualdades, comprometer o orçamento das famílias e enfraquecer a base econômica das cidades.

É preciso cautela, responsabilidade e coragem para enfrentar esse debate com os olhos voltados para o futuro. O Brasil não pode legalizar a aposta sem antes garantir proteção a quem mais pode perder com ela: as famílias e os pequenos empreendedores.

Por Flávio Furlan, presidente da Faciap

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