
As empresas brasileiras terão de ampliar seus cuidados com a saúde mental dos trabalhadores a partir da atualização da Norma Reguladora 1 (NR-1), emitida pelo Ministério do Trabalho e Emprego. O tema foi pauta de uma audiência pública realizada nesta sexta-feira, 19, no Plenário da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). A iniciativa foi organizada em parceria entre a deputada estadual Márcia Huçulak (PSD) e a Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Estado do Paraná (Faciap).
A atualização da NR-1, que passa a vigorar em maio de 2026, exige que os empregadores incluam no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) não apenas os riscos físicos e ambientais, mas também os riscos psicossociais, como estresse, sobrecarga mental, metas excessivas e problemas de relacionamento no ambiente de trabalho. Para a deputada Huçulak, trata-se de uma mudança de paradigma. “Não se trata apenas da estrutura física, mas também das relações no ambiente laboral. É uma resposta ao boom de problemas como depressão, burnout, ansiedade e síndrome do pânico”, afirmou.
O presidente da Faciap, Flávio Furlan, destacou que a mudança legal apenas reforça algo já praticado por muitas empresas ligadas ao sistema associativista. “O que se fez com a NR-1 foi trazer para a legislação aquilo que já deveria ser prioridade para todo empregador. As associações comerciais já se preocupam com isso há muito tempo”, disse.
Pequenas empresas em foco
Durante a audiência, o vice-presidente da Faciap, Lourival Macedo, chamou a atenção para os desafios que micro e pequenos empresários terão pela frente. “Esses empresários são os que menos têm amparo para aplicar essas normas. Nosso papel com esta audiência é chamar a atenção para esse fato. Nós, empresários, precisamos reconhecer o que está posto diante de nós. Investir em saúde mental não é apenas um cuidado social, mas sim uma estratégia de gestão”, declarou.
Macedo acrescentou que ambientes de trabalho mais saudáveis resultam em maior produtividade, engajamento e redução do absenteísmo e da rotatividade. “Trabalhadores mais saudáveis e motivados significam empresas mais fortes e competitivas”, reforçou.
Cenário de adoecimento mental
Os dados apresentados reforçam a urgência do debate. Segundo o Observatório da Segurança e Saúde no Trabalho, somente em 2024 foram registrados mais de 472 mil afastamentos por transtornos mentais no Brasil, um aumento de 68% em relação a 2023. O Paraná reflete essa realidade: entre 12% e 15% dos trabalhadores formais convivem com ansiedade ou depressão.
Aline Guedes, coordenadora técnica do Centro Estadual de Saúde do Trabalhador (Cest), destacou que os fatores psicossociais relacionados ao trabalho têm peso direto no processo de adoecimento. “É preciso frisar que falar de saúde mental e trabalho extrapola o autocuidado individual. O trabalho tem influência direta no processo de saúde e doença”, afirmou.
Mudança cultural nas organizações
Representantes do Ministério Público do Trabalho e da Secretaria de Inspeção do Trabalho reforçaram que as empresas terão de promover treinamentos e rodas de conversa, além de fortalecer setores de RH e compliance trabalhista para atender às novas exigências. “Isso vai proporcionar uma mudança cultural nas organizações”, disse Rui Alberto Ecke Tavares, chefe da Seção de Inspeção do Trabalho no Paraná.
O desembargador Célio Horst Waldraff, presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 9ª Região, ressaltou que o cumprimento das novas regras também trará ganhos de produtividade. “Estamos descobrindo que melhores condições de trabalho conduzem a mais eficiência empresarial. A qualidade do ambiente e da atividade se unem nessa atividade de compliance de saúde mental”, avaliou.
Recursos Humanos como aliados
Profissionais da área de Recursos Humanos também participaram do debate. Lisiane Domingos, coordenadora de RH da Faciap, destacou que a nova NR-1 deve ser encarada como uma oportunidade de inovação na gestão de pessoas. “Pedimos que os empresários não enxerguem essa atualização como algo impositivo, mas como uma chance de melhorar o ambiente e cuidar das pessoas”, afirmou.
Também contribuíram com reflexões Elenita Betlen, presidente da AAPSA Paraná, e Débora Ramos, consultora no Great Place to Work (GPTW).
A audiência pública cumpriu o objetivo de mobilizar lideranças empresariais, órgãos públicos e especialistas em saúde do trabalho para discutir os impactos da nova NR-1. O desafio está lançado: transformar a exigência legal em oportunidade de construir ambientes de trabalho mais humanos, sustentáveis e produtivos.



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