×

A empresários, Levy pede “coragem” para fazer ajuste “rápido”

Um dia depois das manifestações contra o governo, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, se apresentou logo cedo em São Paulo, onde se reuniu o dia todo com representantes de dois dos mais importantes setores da economia ­ o comércio e a indústria. A defesa do ajuste fiscal e as razões que o justificam foram colocadas de maneira didática e clara e ganharam uma ênfase: a necessidade de fazer esse ajuste rapidamente ­ ainda que isso possa torná­lo mais duro neste início ­ para que se possa também ter uma retomada em tempo mais curto. Para isso, conclamou Levy, é preciso coragem e não medo.

“Se a gente tiver coragem, esse negócio não vai ser tão difícil. Temos uma iniciativa privada que poucos países têm, se a gente fizer rápido vai dar resultado muito rápido”, disse o ministro. “Agora, se ficar com medo, a gente paralisa. Então agora não é a hora de ter medo. É hora de ter confiança”, completou ele.

À plateia de empresários na Associação Comercial de São Paulo (ACSP), ontem pela manhã, ele afirmou que o ajuste deve ser “rápido, de verdade e do tamanho que é necessário”, repetiu diversas vezes que o saneamento das contas públicas não está sendo feito com a criação de novos impostos e, mais de uma vez, pediu o apoio do setor privado. À tarde, na saída da reunião na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), afirmou que a necessidade do ajuste é “quase uma unanimidade entre a classe produtora”.

“A gente não faz um ajuste pelo ajuste. É para ajeitar a casa, limpar o convés, levantar as velas e seguir”, disse ele na sede da ACSP. O ministro disse que parte da necessidade do ajuste vem das mudanças nas políticas econômicas de parceiros comerciais do Brasil e parte do desmonte da política anticíclica adotada pelo país para enfrentar a crise de 2008.

O cenário entre 2003 e 2009 ­ com a política fiscal mais expansionista dos EUA e o crescimento da produção industrial chinesa, que colocaram os preços relativos em posição favorável ao Brasil ­, forjou o espaço fiscal que permitiu que, “pela primeira vez”, o país pudesse ter política anticíclica para lidar com uma crise. “Isso acabou. Nossos parceiros já estão em outra e não há mais espaço fiscal”, disse. “Há uma realidade que exige ação rápida, de criar estabilidade para voltar a crescer”.

O ministro citou a redução de aportes do Tesouro ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a recomposição de alguns impostos, como a Cide, como parte da readaptação a essa nova realidade. Em sua fala, em nenhum momento ele admitiu a possibilidade de rever as mudanças recentes na desoneração da folha de pagamentos ­ bastante criticada pelo setor produtivo ­, que aumentam as alíquotas de contribuição à Previdência Social que incidem sobre o faturamento das empresas. Em setores como o varejo, a contribuição para o INSS, de acordo com a medida provisória 669, deveria subir de 1% para 2,5%. Em outros setores, a elevação seria de 2% para 4,5%.

“As razões que levaram às políticas anticíclicas desapareceram, o câmbio não está mais onde estava, então é absolutamente natural que essas medidas sejam revertidas. Como imaginar que as empresas não paguem mais a Previdência?”, disse. Levy argumentou que o ajuste em curso traz custos, mas que ele “visa evitar um cenário muito desfavorável”, que viria com “um downgrade, de uma crise cambial, de uma inflação permanentemente alta”. O saneamento das contas públicas, afirmou, é a primeira etapa para que se possa tomar outras medidas de incentivo ao crescimento ­ como a retomada das concessões, “talvez em formato diferente, que permita maior envolvimento do capital privado”, ou uma política “mais ousada” de comércio exterior”. “Só poderemos olhar pra próxima etapa se a inicial estiver completa.”

O ministro sinalizou ainda que políticas setoriais como as observadas nos últimos anos não estão mais no radar do governo e afirmou que “a agenda do desenvolvimento tem que ser de simplificação”. E, mais uma vez, disse que o governo tentará simplificar o PIS/Cofins.

Levy reiterou que a intenção é prosseguir no caminho do chamado realismo tarifário e da disciplina fiscal, para que o custo da dívida seja cada vez menor. Deste modo, defendeu, criam­se melhores condições para o investimento. “Já evoluímos nisso, mas precisamos evoluir mais. Todo mundo quer ter juros mais baixos, para isso, vamos precisar de medidas que estimulem a poupança”.

 

Fonte: Valor Econômico

Post recentes