O paradoxo impera no país de mentira. As facilidades e as conveniências seduzem os miseráveis e embriagam os homens do poder. Sem bons exemplos na parte de cima, vindos daqueles que teoricamente estudaram, trabalharam ou se esforçaram mais, quem está no fundão não vê problema em vandalizar o bem público, em saquear cargas ou muito menos em levar para casa o que não lhe pertence.
No país de mentira, a histórica confusão entre público e privado é levada ao seu extremo. E assim permanecerá até que uma espessa névoa de hipocrisia encobrir a verdade e os holofotes da audiência iluminarem o que é fútil, degradante e sem valor. A saúde e a educação públicas não vão melhorar até que o debate sobre o futebol for mais importante que a atitude do político corrupto.
Enquanto a bebida que mascara sentimentos e a conversa fácil forem as opções da maioria que não dá a mínima para os conchavos e as suas consequências, o país de mentira vai prosperar e ocupar brilhantemente as últimas colocações nos rankings da educação de qualidade, da ciência e tecnologia, das carências em infraestrutura e a liderança em criminalidade, em corrupção e em abusos e aberrações de toda ordem.
Enquanto os miseráveis se conformarem com as migalhas e a Justiça fechar os olhos, os poderosos debocharão. Uns se pautarão pelas benesses da posição que “tão duramente” alcançaram. E se sentirão mais importantes do que realmente são a bordo de carrão com chofer, ao degustar bebidas finas servidas por garçons no horário do expediente e embolsarão sem dó ajudas de custo vergonhosamente consentidas. Outros, por sua vez, beberão vinhos caros, andarão de jatinho e receberão de almas honestas e generosas casas, sítios e apartamentos. Os dois tipos de poderosos, entretanto, brindarão às custas do povo.
Enquanto os que traem juramentos e os que se embriagam pelo poder dão as cartas e fingem normalidade, o país de mentira assiste, impotente, ao agravamento dos seus dramas. Pobres são condenados à morte por falta de hospital, de atendimento, de remédio, de ambulância. Os criminosos da base da pirâmide, diante da repressão de faz de conta, aprimoram métodos sórdidos e violentos e o máximo que a imprensa consegue é banalizar o que deveria, na origem, ser combatido pela educação, pelos bons exemplos e por uma Justiça isenta, cidadã e responsável.
Enquanto aqueles que se sentem acima da lei, da Justiça e do aperto financeiro seguem a sua trajetória de vergonha, o país de mentira se entrega a debates inócuos, a conceitos falidos e a ideologias doentes e rancorosas. Diante de um rol de problemas tão absurdos e que parecem sem solução é fácil entender porque o nacionalismo e o altruísmo puro e verdadeiro são tão raros no país de mentira. O conformismo, a depreciação de valores que tanto tempo a humanidade consumiu para aprimorar e a divisão, que tão acentuadamente é instigada e incentivada por alguns, dão poucas chances de mudança ao país de mentira.
O lema nessa terra onde homens se vendem por dinheiro ou favores é siga com a sua vida sem se importar com o outro, se entregue às conversas fáceis, fuja dos debates sérios, chatos e penosos e renda-se às seduções da improbidade, às vantagens e ao oportunismo. Afinal quem, em um mar tão imenso de impunidade, de aberrações e de manipulação, vai condená-lo a optar pela saída mais cômoda e rasteira? Viva a inércia, o mau-caratismo, o ufanismo barato, o culto ao falso herói, a falta de coerência, os conchavos, os luxos comprados e compartilhados com o dinheiro do contribuinte incauto, a futilidade. Vida longa ao país de mentira.
Artigo por Jean Paterno, jornalista