Os efeitos da crise em torno da Petrobras, que culminaram com o rebaixamento do rating de crédito da empresa para grau especulativo pela Moody’s na segundafeira, há tempos têm extrapolado os limites da companhia e do mercado de ações de forma geral.
O dólar e os juros futuros, vistos como importantes medidas de risco, vêm sendo impactados pela avalanche de notícias negativas envolvendo a estatal e a piora da perspectiva para a economia brasileira. Exatamente por isso a reação desses ativos ao rebaixamento da nota de crédito da Petrobras não foi tão intensa no pregão de ontem.
A moeda americana subiu 1,38%, para R$ 2,8698, enquanto o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021, mais sensível a aversão a risco, avançou para 12,58%, ante 12,54% no ajuste anterior. “Houve algum contágio inicial para os preços da dívida externa e para os mercados locais, mas uma série de más notícias já estavam refletidas nos preços dos ativos de tal forma que os efeitos secundários adversos têm sido mínimos”, avalia Siobhan Morden, chefe de estratégia de renda fixa do Jefferies Group.
Dentro do mercado de DI, uma medida que ilustra o aumento da percepção de risco é a inclinação da curva a termo entre o DI para janeiro de 2021 e o DI para janeiro de 2017. Quanto menor essa inclinação, menor a percepção de risco do investidor no longo prazo.
Essa diferença ontem era negativa em 0,38 ponto percentual, ante 0,41 ponto de terçafeira. Essa diferença chegou a ser de 0,71 ponto no dia 26 de janeiro, quando os mercados passaram a depositar mais confiança na autonomia do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Desde então, essa diferença vem aumentando. A preocupação com a Grécia, a escalada do dólar ante o real, dúvidas sobre o cumprimento da meta fiscal, além da piora da perspectiva para o PIB neste ano com a possibilidade de racionamento de energia ajudaram a compor o quadro de maior aversão a risco, que foi agravado pelo falta de solução para a crise na Petrobras.
A contaminação dos problemas da Petrobras à percepção de risco se dá por várias frentes. A estatal é a maior empresa brasileira e estimase que seus investimentos representam, de forma direta e indireta, o equivalente a 10% do PIB.
Além disso, o maior acionista da companhia é o governo federal, o que alimenta o debate no mercado sobre o risco de o governo ter de capitalizar a empresa o que teria implicação para o resultado fiscal. “Se o governo precisar capitalizar a Petrobras, o risco de um rebaixamento para ‘junk’ da nota de crédito soberana é maior”, afirma o analista de pesquisa macroeconômica do Barclays Bruno Rovai.
A analista da Jefferies lembra que o bônus em dólar de dez anos do Brasil já está sendo negociado com um prêmio de 50 pontosbase em relação aos bônus de países como Paraguai e Guatemala que têm rating de crédito “BB”, o que implica que o risco de perda do grau de investimento já está, em parte, no preço.
Para Siobhan, as agências de rating vão esperar para avaliar o desempenho fiscal do governo brasileiro neste ano, e uma eventual perda do grau de investimento pelo Brasil viria só em 2016. Para o chefe de pesquisa para mercados emergentes da Tandem Global Partners e exdiretor de assuntos internacionais do BC, Paulo Vieira da Cunha, um dos motivos para o rating do Brasil não ter sido rebaixado é o fato de o país ter uma dívida externa pequena e um volume de reservas internacionais suficiente para cobrila, que soma hoje US$ 371,89 bilhões.
No entanto, Cunha chama a atenção para o aumento do endividamento externo das empresas brasileiras, que podem começar a ter dificuldade para rolar essas dívidas, o que afeta as expectativas para captações externas. A própria estatal é o principal emissor de dívida privada do Brasil.
A maior aversão a risco e o próprio impacto no fluxo cambial podem aumentar a pressão sobre o câmbio, reduzindo o espaço para o Banco Central encerrar o programa de venda diária de swaps cambiais, estendido até o fim de março. “É importante que haja uma desvalorização do real, porque há um déficit externo que é insustentável, mas a rápida velocidade desse ajuste pode forçar o BC a ter que renovar o programa”, diz Cunha.
Fonte: Valor Econômico